Papo com Lêda

Papo 001 / Dezembro de 2007

 
 

A Loja Mágica de Brinquedos e O Pensamento Voa – descobrindo o prazer da filosofia:
uma boa sincronicidade numa tarde de um longo feriado.

 

Após assistir ao lindo, emocionante e filosófico filme A Loja Mágica de Brinquedos, entrei em uma livraria e ouvi esta conversa ao celular de um jovem pai com sua mãe, referindo-se ao filme:

“É bem despretensioso. Bem lúdico. Para criança sonhar.”

Ele não entendeu nada, que pena. – pensei.

Em minhas mãos, tinha o livro O Pensamento Voa - descobrindo o prazer da filosofia.  E nele, Wittgenstein diz para Sócrates: “O nada tem tanto valor quanto algo sobre o qual não se pode dizer nada.” (p.64)

Naquele filme despretensioso havia tantas pretensões. Camufladas em um linguajar colorido, lúdico, sim, mas com uma simplicidade rica em detalhes e nada modestas.

 

O Senhor Magorium (através do majestoso trabalho de Dustin Hoffman) mostra-nos como devemos deixar de lado nossa postura de meros observadores passivos da vida e de como podemos transformar nossas inexpressivas vidas em vidas potenciais, tornando-nos observadores ativos, interagindo com os objetos, com os fatos, com os momentos. Experimentando e deixando a nossa contribuição para um mundo melhor.

Devemos desmascarar o mito de um mundo material cheio de objetos cujas propriedades são inteiramente fixas, independentemente de se as observamos ou de como fazemos isso. O mundo real, para além do “véu da percepção”, pode ser um lugar muito diferente. (p.57)

Tão diferente como a incrível Loja de Brinquedos do Sr. Magarium.

Outro trecho do livro em minhas mãos remete-me ao filme:

Se nada mudasse no resto do mundo e os sons pudessem ser “feitos”, então existiriam sons sem que houvesse a audição, assim como existem os sons com ela. Mas, por outro lado, se um som não é ouvido, pode mesmo ser chamado de som? Um som não ouvido é uma coisa triste. (p. 62)

Através da personagem Molly Mahoney (Natalie Portman), o filme nos aponta um dilema vivenciado pelos jovens até os dias de hoje: vocação x profissão. Às vezes, seguir sua vocação implica rejeição por parte do mundo “adulto”. Assim, belas e vitoriosas vocações, vidas profissionais se perdem deixando o mundo mais carente, mais frustrado e mais perigoso. (Rubem Alves precisa palestrar mais por este Brasil afora.)

A Loja Mágica de Brinquedos nos oferece uma bela proposta: não desista de seus dons, não desista de suas potencialidades, não desista de suas metas, não desista de seus sonhos. Ouça o seu coração, escute a melodiosa música de sua vida e reja-a com toda a sua alegria, força, credibilidade, esperança e amor.

Desejo que os pais parem de mutilar as almas de seus filhos escolhendo por eles as suas profissões.

Mas consciência de si mesmo significa (...) Significa ter consciência de si mesmo como ser consciente, diferente de outros seres conscientes. (pp. 134, 135)

Eric, o menino colecionador de chapéus (Matt Baram), aparece mostrando-nos o quanto a nossa sociedade continua preconceituosa ao descartar de sua relação e convívio os introvertidos. De quanto ela ainda pensa que, agindo assim, estará protegendo-se de seres estranhos e dispensáveis. O filme mostra, através de Eric, o quanto o “diferente introvertido” tem de grandioso como ser humano, e de como a sociedade perde ao desprezá-lo. Isso porque, às vezes, são eles, que, na sua introspecção, vão percebendo o que está acontecendo e podem salvar a situação. E, principalmente, de como somos diferentes, sim, e de que exatamente por sermos diferentes uns dos outros é que o mundo fica colorido.

- Um caso não prova a regra. Um cisne branco não prova que todos os cisnes são brancos. Um cisne preto, porém, prova que eles não são.

- Então terei de ensinar filosofia a todas as pessoas do mundo e fazê-las felizes para que você acredite em mim? (p. 257)

O “Mutante” contador da loja (Jason Bateman) bem poderia representar as pessoas que, como o pai citado acima, continuam encarando essas questões como “pura brincadeirinha” de um “filme despretensioso”, etc. e tal. No final do filme, ele (quem: o mutante?) aprendeu a lição.

Ainda precisamos de muitos autores e diretores como Zach Helm, oferecendo-nos filmes “despretensiosos” e repetitivos, pois, quem sabe, um dia, nós aprenderemos, finalmente, a lição tão simples de vivenciarmos a verdadeira realidade da vida.

Veja o filme e leia o livro! Vale a pena!

Filme: “A Loja Mágica de Brinquedos” de Zach Helm.

Livro: EYRE, Lucy. O Pensamento Voa – descobrindo o prazer da filosofia. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.


Um abraço a todos,

Lêda Maya

 

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