A Flauta e o Tempo – o encontro com Margaret Mee
 

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Enganando o zelador

 

 

 

    Júlia, descendo a escada do seu prédio e olhando para a cidade lá embaixo, assustou-se quando viu a hora marcada no relógio da Central do Brasil*, tratando, então, de sair em disparada ladeira abaixo. “Garanto que André tá jogando bola com a Aurora. Droga! Só vou chamar uma vez, se ele não vier, vou sozinha pro “nosso castelo” — pensou Júlia, preocupada com o tempo. “ Tenho certeza que o Pedro tá mergulhado nos seus livros e nem vai lembrar do nosso encontro. Parece até que esquece da vida”. Preocupada com a pontualidade dos amigos, Júlia ia descendo a rua. “Será que o Carlos foi levar banana? Espero que ele não fique por lá, atrás de algum bicho, e se atrase”. Descendo e pensando, ela chegou no final da rua, virou à direita e, passadas algumas casas, parou em frente a uma pequenina.
    — André! Vam’bora! — gritou ela.
    — Já vou! — André respondeu, assustado, lá do quintal no fundo da sua casa, bem na hora que ia chutar para o gol. — Ufa! Tinha esquecido. Vamos, Aurora, antes que Júlia comece a berrar por nós — disse, pegando
a bola. — Tchau, vó, vou pro “nosso castelo”!    — informou à vó, preocupando-se em deixá-la tranqüila e saindo em direção à rua.
    — Vem logo! Não vou ficar esperando muito, não! — berrou Júlia, lá da rua, já impaciente, colocando as mãos na cintura bem na hora que André abria o portão. — Ainda bem que você não demorou muito — disse, correndo feliz em direção ao castelo, deixando sua impaciência lá atrás no portão e já pensando no que poderia tramar com seus amigos. — O último a chegar lá é mulher do padre! — gritou, feliz, para André que, junto com Aurora, corria, tentando ultrapassá-la.
    — Pera aí, Júlia — gritou André, parando, de repente, bem na hora que iam descer a ladeirinha. — O Carlos tá vindo aí — avisou ele, olhando para a casa abandonada.
    — Como é que você sabe? Eu não tô vendo nem sombra dele. Vai ver que ele já está lá na torre, esperando a gente — disse ela, intrigada com a certeza do André.
    — Olha, lá vem ele; eu não disse? Oi, Carlos! Tamos te esperando
    — gritou André para o Carlos que vinha descendo a escada, retornando da pequena floresta atrás da casa abandonada.
    — Nossa, André, você sempre advinha, né?! — exclamou Júlia, mais intrigada ainda com o acerto do amigo.
    — Olá, pessoal! Encontrei um besouro legal. Vamos logo pro “nosso castelo” que lá eu mostro pra vocês — informou Carlos, orgulhoso com o sucesso da sua expedição.
    — Vamos que o Pedro já está esperando por nós — afirmou André.
    — Duvido. Ele tá é mergulhado com seus livros na banheira dele, isso sim
    — disse Júlia, certa de que, desta vez, André estava errado na sua previsão. E os três, seguidos por uma Aurora saltitante, foram descendo a ladeirinha, muito ansiosos pelo encontro deles quatro. A euforia da Aurora murchou, quando eles chegaram em frente ao portão do castelo, pois ela sabia que ali era o fim do seu caminho.
    — Tchau, Aurora. Fica aí numa boa que mais tarde eu volto — murmurou André, muito triste, tentando convencer a si mesmo de que ela ia ficar bem.
— Você sempre fica triste em deixar a Aurora, não é, amigo? — perguntou Carlos. — E se a gente enganasse seu Francisco? A Aurora entrava, e vocês dois não ficavam mais tristes.
    — Mas, Carlos, seu Francisco não quer a Aurora dentro do “nosso castelo”. E se ele me pegar com ela, eu nunca mais vou poder entrar
    — explicou André, assustado só de pensar nesta possibilidade.
    — É, Carlos, André tem razão; se isto acontecer, nunca mais vamos
poder nos reunir na nossa torre — concordou Júlia, já pensando em alguma idéia para enganar seu Francisco.
    — É. O jeito é a Aurora ficar aqui fora mesmo, me esperando — suspirou André bem baixinho e abraçando bem apertado sua cachorra.
    — Nada disso. Eu não vou agüentar ficar vendo essa sua cara de quem comeu e não gostou até o fim da nossa reunião — exclamou Carlos, indignado com a situação criada por seu Francisco. — E eu não acho justo a Aurora não poder entrar, afinal, quase todos os moradores têm um bicho no apartamento. Só porque ela não mora aqui? Ela é minha convidada e do Pedro também. E já que nós moramos aqui e não temos bichos, temos o direito de receber a visita da Aurora.
    — Isso mesmo, Carlos, e depois o André vai ficar toda hora se pendurando
na torre pra olhar aqui pra baixo e não vai se concentrar nos nossos assuntos — afirmou Júlia, ficando mais pensativa. — Temos que achar uma maneira de enganar o chato do zelador.
    — Vai, Júlia, tenha logo uma idéia — pediu Carlos, esperançoso. Júlia sentou-se quieta ao lado de André e Aurora na calçada e começou a remoer suas idéias, esperando criar uma das boas. De repente, seus olhos começaram a brilhar. Era uma enorme se aproximando. Júlia começou a enxergar uma saída para seu amigo e a cachorra dele. A reunião ia acontecer e com todos eles!

 

 
 

 
 

 

    — Vamos criar uma confusão lá no porão do “nosso castelo” e, então, o seu Francisco vai ter que ir pra lá resolver. Mas tem que ser uma confusão bem confusa, que é pra ele ficar por lá tempo suficiente pra gente se reunir em paz — explicou Júlia, animada.
    — Tem uma torneira lá embaixo que tá quebrada. Seu Francisco fechou o registro, mas eu sei onde fica — disse Carlos, arregalando os olhos, fazendo suspense.
    — Fala, Carlos, fala logo — gritou André, nervoso. — É simples. Eu vou até lá e abro o registro — explicou Carlos com uma voz enigmática, aumentando o suspense.
    — E depois? — perguntou André, aflito.
    — Depois de passar um tempo, volto e aviso ao seu Francisco que está acontecendo uma desgraça e que é pra ele ir correndo, senão o porão vai inundar — respondeu Carlos, caindo na gargalhada. Júlia também começou a rir, satisfeita; afinal, Carlos, como sempre, tinha transformado sua idéia numa realidade fantástica. André deu um salto de alívio, e Aurora balançou o rabo, pressentindo que estava salva.
    — Vai, Carlos, que a gente fica aqui esperando por você — pediu Júlia, confiante de que ia dar tudo certo.
    — A gente vai ficar torcendo daqui, amigão — disse André, encorajando Carlos.
    Carlos deu um olhar de despedida para seus amigos e, cheio de coragem, abriu o portão, entrando no túnel com escadas que o levaria até o pátio do castelo. Quando chegou lá em cima, olhou para todos os lados, vendo se seu Francisco andava por ali. O caminho parecia livre, mas todo cuidado era pouco, pois ninguém podia vê-lo a caminho do porão. A verdade é que este castelo não tinha só um morador, tinha era muitos moradores. É que, há muitos anos, o dono dele ficou com pouco dinheiro para cuidar sozinho daquilo tudo e, então, resolveu transformá-lo num prédio de apartamentos. Foi aí que os pais dele vieram morar ali, e os pais do Pedro também. Por isso todo cuidado era pouco, pois, a qualquer momento, um vizinho poderia vê-lo. Carlos foi em frente. Atravessou o pátio. Até aqui tudo bem, ninguém nas janelas e nenhuma criança brincando por ali: a sorte é que era hora de escola, e quase todas as crianças do prédio estudavam à tarde. Pela primeira vez na vida Carlos não teve inveja delas...
    Agora vinha o mais difícil: passar pelo corredor até o final onde fica a escada que leva ao porão. E se alguém abrisse a porta? Ele estava perdido! Preocupado, ele entrou no corredor. Era enorme e cheio de portas. Carlos sentiu um calafrio na espinha. Era melhor voltar. Não! Não podia; afinal, seus amigos contavam com ele. Contou até três e penetrou naquele infinito. Com o coração disparando, foi andando devagar com medo de ser descoberto. De repente, Carlos gelou, não conseguia se mexer de tão assustado: alguém estava enfiando a chave na fechadura. E agora? Ele estava bem no meio do corredor, não ia dar tempo de voltar, nem de ir em frente. O que ele podia fazer? Nada! Era o fim do plano. Em poucos minutos ele seria visto perto da escada para o porão e, quando tudo acontecesse, ele seria o suspeito. Foi o Carlos! Iriam acusá-lo. Sem provas, já desconfivam dele; imagine agora com aquele flagrante! Que droga! Sua fama de aprontador tinha corrido mundo, ou melhor, castelo. Carlos gelou, estavam girando a chave na fechadura. Uma... duas..., ficou contando atentamente,... TRÊS! Pronto. Agora não tinha mais jeito, estava frito, era só esperar a porta abrir e derrubar todo o seu plano. Júlia é que fosse tratando de arrumar outra idéia. Mas o que era isso? Só podia ser um milagre! A porta continuava fechada. Não abriram! Trancaram! Ele não conseguia acreditar no que tinha acontecido: em vez de abrirem... trancaram.“ESTOU SALVO”! pensou tão alto, que, enquanto seguia caminho, foi verificando se alguém tinha escutado. Com o caminho livre, ele finalmente chegou e foi direto para o registro.
    — Caramba, como é que eu vou alcançar? — pensou, olhando para o alto da parede onde se encontrava o registro.Não desistindo, verificou, num canto, perto de umas caixas, uma escada pendurada. Sem pestanejar, lá estava ele subindo e abrindo o tal registro. Agora tinha que ser mais rápido, pois a água já estava se esparramando pelo chão. Descendo, tratou de colocar a escada no lugar, preocupado em não deixar vestígios. Pronto. Tudo feito. Conferindo, tratou de voltar para o corredor. Não! O corredor de novo, não! Só em pensar, Carlos gelou novamente, e o pior é que não tinha volta: o jeito era encarar. Atravessou numa disparada só: parecia até que tinha uma alma penada correndo atrás dele. Chegou no pátio com o coração saindo pela boca e ficou um tempo escondido, atrás de um arbusto, esperando seu coração entrar de novo.Agora vinha o pior: seu Francisco! Lá estava ele, encerando a torre da frente. Carlos atacou de inocente:
    — Seu Francisco, seu Francisco... vai correndo, seu Francisco... o porão tá cheio d’água
    — disse com a cara mais assustada que sabia fazer.
    — O que você me arrumou desta vez, seu pestinha? — resmungou seu Francisco, correndo desesperado em direção ao porão.
    — Não tenho nada com isso, não, seu Francisco; eu só vi foi água pra tudo quanto é lado
    — disse Carlos com voz inocente, segurando uma enorme gargalhada.

 

 
 

 

 
 
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