Na Floresta Amazônica com Margaret Mee
 

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Pisando na Floresta Amazônica

 

 

 

    – Júlia... – chamou Pedro baixinho.
    – O que é? – perguntou ela, abrindo os olhos, percebendo que o amigo estava preocupado.
    – A gente conheceu, de verdade, a pintora inglesa, que minha mãe foi ver as aquarelas dela numa exposição? – questionou mais baixinho.
    – Conheceu... – respondeu ela, fechando os olhos e respirando aliviada com a insignificância da preocupação de Pedro.
    – Aquela pintora famosa que morou, há um tempão atrás, antes da gente nascer, perto da nossa casa? – continuou já sussurrando.
    – Ela mesma... – disse revirando-se na poltrona.
    – E que não mora mais lá, porque já morreu? – continuou, tão baixinho, que quase não se ouvia.
   
Isso mesmo... – resmungou um pouco mais forte, voltando para o outro lado.
    – Júlia? – chamou, mais uma vez, quase sem forças.
   
Oi! – resmungou alto, abrindo os olhos.
   
A gente tá mesmo neste avião militar indo pra Floresta Amazônica, com ela? – completou seus questionamentos quase desfalecido.
    – Ai meu carambola! Não se pode mais tirar um cochilo nesse céu, não, é? – perguntou irritada ajeitando-se na poltrona. – Claro que estamos. Tem dúvidas? Olha pela janela. Aquilo lá embaixo é a Floresta Amazônica. Agora, olha pro lado. Tá vendo? Aquela ali é a Margaret Mee, que a gente chama de Peggy. E o marido dela, o nosso amigo Greville, foi quem nos levou pro aeroporto num carro que já não existe mais. Lembrou?!
  
 – Parece até um sonho... – murmurou Pedro, um pouco envergonhado, sem tirar o rosto da janela, esperando o calorzinho nas bochechas sumir com a marca da vergonha. Afinal, pagar dois micos de uma só vez era muito para ele.
   
Tomara que não seja um pesadelo – desejou Carlos, sonolento.
  
 – Que sonho e pesadelo, o quê! – exclamou Júlia. – Onde é que já se viu todo mundo sonhar o mesmo sonho? Pior ainda: como é que a gente pode estar tendo o MESMO pesadelo? Vocês tão é “viajando”
    – acrescentou, retornando à posição do cochilo.
    – É mesmo, a Júlia tem razão. Cada um tem o seu próprio sonho, na sua própria cama. E pesadelo? Tá descartado, não é mesmo? Tudo isso tá é bom demais pra ser um pesadelo. E depois, eu tô pra lá de acordado – afirmou Carlos. – Será que tô mesmo? – duvidou saltando da poltrona.
   
E se a gente tiver sonhando acordado? – arriscou André, olhando fixo para Margaret que, alheia aos problemas dos quatro, olhava pela janela.
   
Isso mesmo, André! – disse Pedro, apostando na opinião do amigo.
   
É, o André pode estar com a razão! – deduziu Carlos, voltando a sentar.
   
Onde já se viu sonhar acordado, cara? – questionou Júlia, revirando-se.
   
Ué!... Quando a gente vive uma coisa boa demais da conta, daquelas que, de tão boas, a gente até demora a acreditar... só pode ser um sonho! – devaneou Pedro.
   
É isso mesmo! E que sonho, hem? Quem podia imaginar que quando o Pedro tocasse a flauta lá na “torre” do “nosso castelo”, tudo isso ia acontecer? – exultou André.
   
Voltar 28 anos no tempo... caramba! É difícil de acreditar! – murmurou Carlos, levantando-se da poltrona.
    – Vejam crianças, um casal de araras!
    – Onde, Peggy? – perguntaram os quatro, correndo para junto dela.
    – Lá, na direção da asa do avião – indicou Margaret, radiante.
    – Chega pra lá Carlos, eu também quero ver – reclamou André, tentando chegar perto da janela.
    – Ah, cheguei primeiro. Quando sou eu, você não me dá lugar – devolveu Carlos, chegando um pouquinho para o lado, já que não tinha escapatória.
    – Que legal! – exclamou André, encantado com o que finalmente conseguia ver.
    – Ainda bem que o avião tá voando baixo – comentou Júlia, admirada.
    – Poxa, nunca vi tanta mata por tanto tempo – declarou Pedro.
    – Falta muito pra gente chegar em Rondônia, Peggy? – quis saber Carlos. – A gente já passou por Cuiabá, no Mato Grosso, há um tempão.
    – Já devemos estar sobrevoando a Rondônia sim, Carlos – respondeu rindo. – Mas ainda falta para chegarmos à sua capital, a cidade de Porto Velho.
    – Nossa! O Brasil é grandão mesmo! A gente já saiu do Rio há séculos, já voamos pra caramba e ainda nem chegamos a Porto Velho. Até chegarmos em Manaus, então... tem é céu! – exclamou Carlos.
    – É um “mundão de Deus”, que nem fala a Carola – deduziu Júlia, imitando o jeito de falar da Carolina, que trabalha na sua casa.
    – Na primeira vez que eu fui a Manaus, – continuou Margaret – a viagem foi tão longa, nós passamos e paramos em tantos lugares que o piloto até brincou comigo dizendo que eu ia conhecer a metade do Brasil só com aquela viagem.
    – Caramba! Em quantos lugares você parou, Peggy? – questionou Carlos, admirado.
    – Se eu me lembrar... Deixe-me ver... Isto foi em 1964, na minha terceira expedição. Isso mesmo. Éramos só quatro passageiros: um escritor uruguaio, um índio já um pouco velhinho e um garimpeiro, se me recordo bem, chamado Cláudio.
    – Ué, tá faltando um. Só tem três passageiros – alertou André.
    – Parece que bebe! E a Peggy? Esqueceu, ô...? – implicou Carlos, dando um peteleco na cabeça do amigo.
    – Ih, é... esqueci! – respondeu André, rindo da sua bobeira.
    – Depois eu é quem sou o esquecido – resmungou Carlos, também rindo.
    – Fiquem quietos! – reclamou Júlia. – Continua, Peggy.
    – Viajávamos em um avião da Força Aérea Brasileira também. Mas como era menor do que este, parávamos mais vezes para abastecer e com isto nossa viagem durou dois dias.
    – Poxa! Dois dias num avião, só se for num a jato e com muitas aeromoças e aeromoços paparicando a gente o tempo todo – disse Pedro, abismado.
    – Pedro, nem parece que você lê de montão! Não é aeromoço que se diz, não. É comissário de bordo e comissária também, e se fosse um avião a jato, eles dariam, em dois dias, era a volta ao mundo – disse Júlia.
    – Você é que vive viajando com seus pais. Essa é a minha primeira vez – disse, tentando limpar sua barra.
    – Vocês dormiram no avião, Peggy?
    – Não, Carlos. O nosso pernoite, mesmo sem comissários nos “paparicando”, foi muito interessante. Ficamos bem instalados na única hospedaria que existia em uma pequena aldeia, bem na fronteira de Goiás com Mato Grosso.
    – Você dormiu em Goiás ou em Mato Grosso?
    – Nós dormimos e jantamos em Goiás, mas, Cláudio e eu, atravessamos a ponte sobre o rio e fomos passear em Mato Grosso.
    – O quê? Quer dizer que vocês, saíram andando, como quem não quer nada, atravessaram uma ponte e... lá estavam vocês dois em outro estado? – perguntou André, impressionado.
    – “Mãã-êê..., vou brincar com meus amigos ali no
outro estado e já volto!” – brincou Carlos.
    – “Meu filho, vai até o
outro estado comprar pão para o lanche”
    – disse Pedro, entrando na brincadeira.
    – “E vê se não demora” – brincou André, rindo com os amigos.
    – E depois, Peggy? – perguntou Júlia, séria.
    – Ih! Olha a “corta-barato” – reclamou Carlos.
    – A Júlia tá certa. Vamos ouvir o resto da história – defendeu Pedro.
    – O amor é cego... – brincou Carlos, levando, de imediato, um safanão do Pedro.
    – Bem, no dia seguinte seguimos até Xavantina, no Mato Grosso. Encontramos um grupo de índios xavantes. Eles eram bem altos e muito bonitos. Quando nós voltarmos, eu mostro um retrato que tirei com eles. O escritor uruguaio ficou ali numa reserva indígena. Ia estudar a vida tribal e as cobras. Depois paramos mais uma vez,ainda em Mato Grosso, por um bom tempo. O suficiente para eu bater um longo papo com outros índios. Dali, fomos para Cachimbo e em seguida para Jacareacanga...
    – JACARÉ DE CANGA?! E FUMANDO CACHIMBO?! – exclamou Pedro, perplexo.
    – Nunca vi um! – disse André, rindo.
    – Caramba, se jacaré usa canga, “jacaroa” usa o quê? – perguntou Carlos, morrendo de rir.
    – CUECA!!! – concluiu Júlia, rindo de se rolar.
    – Essa foi engraçada, crianças!
    – E depois, Peggy? – perguntou Pedro.
    – Bem, o Cláudio ficou em Jacareacanga e seguimos rumo a Manaus. Quando estávamos chegando, foi que eu avistei o rio Solimões e quando nos preparávamos para aterrissar é que vi o rio Negro. A minha alegria foi enorme. Eu tinha alcançado, pela primeira vez, o outro lado da Amazônia.
    – O rio Negro é bonito? – quis saber André.
    – É lindo! Grande, tem dois mil quilômetros de comprimento. Sua água parece um chá! Escura, mas transparente. Me contaram que os portugueses, antigamente, chamavam o rio Negro de rio dos Venenos. Só não me souberam dizer o porquê.
    – Eu também não sei – informou Júlia.
    – Claro que você não sabe. A Júlia pensa que sabe tudo – disse Carlos.
    – Vai ver que o Pedro sabe. Sabe, Pedro? – perguntou André.
    – Não. Nunca li nada sobre isso.
    – Caramba! Com aquele montão de livros que você tem, não tem unzinho pra contar essa história? Meu caro amigo, você está precisando de mais um livro – brincou Carlos, com voz empostada.
    – Vocês estão vendo aquele rio lá embaixo? É o rio Madeira. Estamos chegando em Porto Velho – informou Margaret Mee.
    – Vamos lá, pessoal, colocando o cinto! – ordenou Júlia.
    – É, vamo nessa, pessoal, colocando o cinto que tá chegando a hora do rango – informou Carlos, preocupado que estava com sua barriga.
    – Oba! Vou comer um sanduichão – gritou André, esfregando a mão na barriga e revirando os olhos de fome. – Já era tempo!
    – Eu vou querer dois! – exclamou Júlia, feliz com a possibilidade de saborear um super lanche.
    – Vou me encher de batatas fritas e um Big Mac! – sonhou alto Pedro.
    – Vocês poderiam me explicar o que é um Big Mac e aonde vocês vão encontrá-lo? – perguntou Margaret, espantada com toda aquela euforia.
    – É um super sanduíche! – explicou Carlos, surpreso.
    – Você nunca comeu um, Peggy? – quis saber Pedro, espantado.
    – A gente compra no McDonald’s, ué! Você nunca foi lá, Peggy?!
    – questionou Júlia, perplexa.
    – Ih! Vai ver não tem McDonald’s no aeroporto de Porto Velho...
    – intuiu André, preocupadíssimo.
    – Lá vem você com sua mania de adivinhar tudo. Vira essa boca pra lá. Isola, bangalô três vezes – disse Carlos, tratando de bater na madeira.
    – Eu estou achando que esta lanchonete é coisa da época de vocês – disse Margaret, deduzindo, já que nunca tinha ouvido tal nome.
    – Caramba! É isso mesmo, pessoal! Nós esquecemos que voltamos no tempo – exclamou Carlos. – Com certeza ainda não existe.
    – É por isso que a Peggy não conhece – concluiu Júlia, desiludida da vida.
    – E agora, o que a gente vai comer? – perguntou Pedro, olhando desapontado para os amigos.
    – O lanche que vocês trouxeram de casa, já que não tem nenhuma lanchonete no aeroporto – informou Margaret com toda a naturalidade do mundo.
    – É, pessoal! Não adianta chorar sobre o leite derramado. Vai ser lanche sem batatinha crocantezinha mesmo, já que viemos parar em 1970 – concluiu Júlia, tentando confortar os amigos e principalmente, a si mesma.
    – E, além do mais, eles não iam aceitar o nosso dinheiro de 1998
    – alertou André.
    – É mesmo. Ia sobrar pra Peggy – concordou Pedro.
    – Vocês esqueceram que Greville deu dinheiro de 1970 pra gente?
    – lembrou Júlia.
    – Tá tudo guardado no meu pote de tampa vermelha – informou Carlos.
    – Todos com cinto? – quis saber Margaret, enquanto se preocupava com a adaptação de seus amigos a uma realidade bem diferente. Com os respectivos cintos, pousaram e encaminharam-se em direção à porta do avião.
    – Bem vindos, meus queridos, à Floresta Amazônica! Os quatro estremeceram como se tivessem acabado de levar um choque ou de acordar assustados no meio de um terremoto ou ainda de ser surpreendidos por ataque aéreo.
FLORESTA AMAZÔNICA? Foi isso mesmo que eles tinham ouvido? Eles tinham acabado de chegar à Floresta Amazônica? É... era isso mesmo. E ali estavam eles. Prontos para descerem as escadas do avião e pisarem o chão da maior floresta do mundo, como os ajudantes de Margaret Mee. E isto tudo há vinte e oito anos atrás, quando eles nem sonhavam em nascer. Realmente, isso era demais!Ninguém conseguia descer um só degrau. Estavam paralisados. O que se estendia perante seus olhos e tudo o mais que estava oculto por detrás daquela visão, era tão poderoso, tão grande, tão esplendoroso, que os quatro amigos se puseram em silêncio, reverenciando aquele momento. Era o princípio de grandes acontecimentos. E, como estivessem numa cerimônia solene, foram descendo bem devagarinho cada degrau, sem emitirem uma só palavra. Aquele silêncio parecia até estar anunciando a chegada de várias e grandes revelações que estavam por vir naquela viagem. Foi assim que eles pisaram pela primeira vez na Floresta Amazônica. Nem a tripulação e muito menos Margaret, ousaram quebrar o poder daquele silêncio. E enquanto o avião militar ia sendo reabastecido, os quatro também trataram logo de fazer o mesmo, traçando o lanche que tinham trazido (escondido) de casa, já que não tinham outro jeito. Parecia até um piquenique: Margaret e eles ali sentados, embaixo de uma palmeira, perto da pista, só que em plena Floresta Amazônica!

 
     
     
     
 
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