A Rabeca do Salu
 

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Reunião na Torre

 

 

 

 

    — Carola! Tô indo nessa!! — berrou Júlia, vindo correndo do seu quarto pelo corredor afora, já em direção à porta da rua. — Tchau, Janjão! Fica numa boa! — despediu-se de seu gato.
    — Menina, pra onde você tá indo?! — berrou Carolina, mais alto ainda do que Júlia.
    — Não se preocupe, já volto.
    — Já fez os trabalhos de casa, Júlia? — perguntou, sem receber resposta.
    — JÚLIA? — esgoelou-se, ao ouvir o barulho da porta — Ai, meu Santo Onofre! Só falta esta menina me desaparecer a tarde toda outra vez
    — ficou resmungando, enquanto mexia o refogado. — Não sei onde ela se enfia que volta toda arranhada, parece até que tá voltando da floresta de tão picada de mosquitos! Só quero ver se, quando os pais dela voltarem, ela ainda vai estar na rua! Em vez de brincar com outras meninas, fica semetendo com aqueles meninos e só me arrumando encrenca. Ainda bem que a irmã dela tem a Mariana lá de cima pra brincar. Se fosse contar com a Júlia, coitada, a irmã ia morrer de tanto esperar. Sai do meu pé, Janjão! Já não te dei comida hoje? Tua dona sai, e eu que fico segurando a rebordosa. Vai dormir, vai, que teu mal é sono. Enquanto Carolina ficava rezando todo aquele terço, Júlia tinha descido sua rua e já chegava na casa de André.
    — André!... André!... André! ...
    — Calma, Júlia! Parece até que vai tirar o pai da forca! A gente já tá indo — disse André, enquanto abria o portão. — Vamos, Aurora — chamou André, esperando sua cachorra passar, e, antes de fechar o portão, gritou lá para dentro:
    — Até logo, vó! Num piscar de olhos, já haviam subido toda a rua, virado a esquina e entrado no castelo. André mal podia acreditar que eles tinham feito aquele trajeto em tão pouco tempo. Que bicho teria mordido sua amiga? Ele e Aurora estavam “botando os bofes pelas bocas” e, reparando melhor, ele viu que Júlia também estava. O que será que estava acontecendo? André começou a desconfiar que Júlia tinha algo muito importante para revelar e, se sua intuição estivesse certa, coisa que geralmente acontecia, era algo que prometia uma aventura e tanto.
    — Calma, Júlia. Você esqueceu do seu Francisco!
    — Que seu Francisco que nada! Vamos, André, vamos!
    — Ah é? Você diz isso porque a cachorra não é sua. Só quero ver se ele aparece e bota a Aurora pra fora!
    — Se ele aparecer, ele não vai botar
a Aurora pra fora do “nosso castelo”, não, seu bobo, ele vai é botar nós dois também. E pára de falar e corre. André tinha que concordar com sua amiga: afinal, Seu Francisco, o porteiro, zelador, faxineiro, carregador de compras e tudo o mais que os moradores quisessem que ele fosse, não gostava de vê-los zanzando ali pelo castelo. Mas o que eles podiam fazer? Era ali, na torre do castelo, que eles se reuniam com o Carlos e o Pedro, todos os dias, depois do colégio, para contarem as novidades e tramarem seus planos futuros. E depois, já que o Carlos e o Pedro eram moradores daquele castelo-prédio, tinham todo o direito de receber convidados, ainda mais eles três, que eram os melhores amigos dos dois. E não é porque a Aurora era uma cachorra que não seria tratada como uma convidada. Logo ela, grande amiga, grande cachorra!
    — Caminho livre. Vamos! — exclamou Júlia, ao chegar ao final do túnel e checar todos os lados do pátio. Enquanto atravessavam o pátio, André ia pensando em como queria chegar logo lá em cima da torre, e em como seria ótimo se Carlos e Pedro não demorassem para que eles ficassem logo sabendo o que Júlia tinha de tão importante para contar. Etapa vencida: até ali, estavam salvos do seu Francisco, só faltava atravessar o corredor que os levaria até a escada para a torre. Realmente eraum dia de sorte. André estava gostando disso, pois era um bom presságio de que a aventura, que ele sentia no ar, ia ser das boas.
    — Olá, amigos! — disse Pedro, surgindo no corredor.
    — Olá! — responderam.
    — Cadê o Carlos? — perguntou Júlia.
    — Tá vindo. Acabou de berrar, da janela, que já ia descer — comunicou Pedro.
    — É bom ele vir logo, porque tô sentindo que o que a Júlia tem pra falar vai arrebentar — disse André, subindo as escadas. E, de degrau em degrau, subia sua intuição de ser aquela revelação o início de uma nova aventura. Quando subiu o último, já estava cristalizada, em sua alma, a certeza de que ele e seus amigos estavam para realizar algo fantástico.
    — Peraí, pessoal! — gritou Carlos, lá de baixo, bem na hora em que Pedro ia fechando a porta da torre.
    — Não grita, poxa. Só falta seu Francisco te ouvir! — reclamou Pedro, abrindo a porta para Carlos entrar.
    — Vamos lá, pessoal, vamos começar logo essa reunião!
    — Pra que a pressa, Júlia? — perguntou Pedro, ajeitando sua mochila num canto. — A gente mal acabou de chegar.
    — Isso mesmo, Júlia, vamos começar logo — reforçou André o pedido de sua amiga.
    — Caramba! O que tá acontecendo com esses dois, Mané? Por acaso vão tirar o pai da forca? — quis saber Carlos, estranhando aquela euforia.
    — A Júlia teve alguma idéia, e pelo jeito é uma daquelas que podem virar a maior aventura — avisou André, ansioso.
    — E alguma vez a Júlia não teve alguma idéia? Não faz outra coisa
    — implicou Carlos.
    — É, mas você bem que gosta das minhas idéias, não é, ô coisa?!
    — retrucou ofendida.
    — Coisa ou não coisa, eu é que consigo descobrir o que a gente faz com as coisas! — orgulhou-se Carlos.
    — Ei, comé que é? Tô querendo ouvir o que a Júlia tem pra falar — reclamou André.
    — Isso aí! Fala logo, Júlia — implorou Pedro.
    — Se o Carlos deixar, eu falo.
    — É isso aí. Cala a boca, Carlos — pediu André, antes que o amigo recomeçasse.
    — É o seguinte: ontem à noite, meu pai e minha mãe estavam conversando e eu ouvi eles falarem de um pintor que morou na casa onde mora a minha tia.
    — E daí? — quis saber Carlos.
    — E daí que a gente pode ir até lá — respondeu Júlia.
    — Até lá onde? — perguntou André.
    — Na casa da minha tia, ué!
    — Fazer o que na casa da sua tia? — questionou Pedro.
    — Será que tô falando grego?
    — Ô Júlia, quem mora na casa da sua tia, não é a sua tia? Então o que a gente vai fazer lá? A gente já tá careca de conhecer sua tia — disse Carlos.
    — Peraí, pessoal! A Júlia tem razão! Se a gente for até a casa da tia dela, a gente vai encontrar o tal pintor — exclamou Pedro, de estalo.
    — Pirou?! Comé que a gente vai encontrar o “tal pintor” na casa da tia da Júlia, se é a tia dela que mora lá agora? — perguntou Carlos, entendendo menos ainda.
    — SAQUEI!!! A Júlia não tá falando pra gente não ir na casa da tia dela, não. Ela tá falando pra gente ir na casa do “tal pintor” — exclamou André, também compreendendo de estalo.
    — Mas não é tudo a mesma casa? — disse Carlos, não entendendo mais nada.
    — É! Mas em tempos diferentes, né, ô Mané! — respondeu Pedro.
    — SAQUEI!!! Quer dizer que a nossa próxima aventura vai começar na casa da sua tia?!     — exclamou Carlos, entendendo, como os outros, tudo de estalo.
    — Cara, que legal! — disse André, emocionado em ver que, mais uma vez, sua intuição estava certa. Ele e seus amigos estavam a um passo de uma nova aventura.
    — E em que ano vai ser isso, Júlia? — perguntou Pedro, também muito emocionado.
    — Não sei. Só sei dizer que minha tia já mora lá há muitos anos. O que vocês estão esperando? — questionou Júlia.
    — Nós? — perguntaram meio abobalhados
    — Não. Eles! Claro que VOCÊS, Mané.
VAMOS?
    — Aonde? — quiseram saber, ainda um pouco atordoados com tudo aquilo.
    — Vocês parecem que beberam. Eu trago uma notícia dessas, super reveladora, ótima pra gente transformar numa incrível e inesquecível aventura, e vocês ficam aí dando a maior bobeira. Vamos ou não vamos viajar no tempo? Amarelaram, é?
    — Que amarelamos, que nada! Estávamos só imaginando como vai ser legal passear pelo passado — disse André, já recuperado.
    — Eu já tô até pegando a minha flauta — informou Pedro, retirando, de sua mochila, o instrumento que os levaria até mais uma das suas fantásticas viagens ao passado.
    — Eu sabia! Eu sabia que nós iríamos viver uma outra aventura! — exclamou André.
    — Calma aí, pessoal. A gente tem que fazer tudo direitinho. Vocês esqueceram da Aurora? — questionou Pedro.
    — Ih, é mesmo! — lembrou Carlos.
    — Aurorinha, minha lindinha, você vai ficar só um pouquinho do lado de fora, tá? São só uns minutinhos, enquanto a gente vai até ali, no passado, só alguns anos atrás, conhecer um “tal pintor” e já volta, tá? — disse André, com muito carinho, para uma Aurora que não estava gostando nem um pouquinho daquela história de ficar do lado de fora. — Não fica triste, não, Aurorinha. É só um pouquinho. Não late não, senão seu Francisco pode te ouvir, tá? Tchau ... — despediu-se André, deixando, com muita tristeza, sua cachorra do lado de fora da porta.
    — Vem, André, senta logo aqui na roda, que o Pedro já vai tocar a flauta — pediu Júlia.
    — Espera aí, pessoal. A Aurora não precisa ficar do lado de fora da porta, não.
    — Como não, Pedro? Pirou de vez? Se ela ficar aqui dentro ela vai com a gente pro passado — exclamou André, sem compreender o amigo.
    — Mas é isso mesmo! Como a casa da tia da Júlia... quer dizer, do “tal pintor” é aqui perto e a gente não vai precisar pegar o bonde, ela bem que podia ir junto — explicou-se Pedro.
    — O Pedro tem razão: não tem nenhum problema a Aurora ir conosco até ao passado — concordou Carlos.
    — Abre logo a porta, André — disse Júlia. E com uma Aurora radiante ficaram ali, quietinhos, sentados em círculo, felizes. Mas também estavam um pouco preocupados, pois se encontravam, mais uma vez, diante do grande mistério que envolvia o ato de Pedro tocar sua flauta ali, naquela torre do castelo, onde ele e Carlos moravam. Era, como das outras vezes, um momento grandioso e, como tal, merecedor de todo silêncio e seriedade. Era o momento da passagem que os levaria até um outro tempo no qual ficariam por muito tempo e do qual retornariam como se não tivesse existido o tempo. Pedro, com muita reverência, iniciou a melodia suave em sua flauta e, aos poucos, os cinco foram sentindo o chão sumir, foram flutuando, foram se envolvendo naquele grande e fantástico mistério.
    — Chegamos... — murmurou André, sentindo-se um pouco mole.
    — Vai na frente, Carlos — pediu Pedro.
    — Vou e com muito cuidado, pois não faço a mínima idéia de quem vamos encontrar pela frente. E os quatro amigos foram descendo as escadas sem fazerem um ruído sequer, atentos a todos os sons que alguém fizesse. Tiveram muita sorte, pois, mais uma vez, não encontraram ninguém, nem no corredor, nem no pátio, nem no túnel. Lá estava o portão. Mais alguns passos e estariam na rua. Torceram com toda a força que tinham para não entrar ninguém por aquele portão enquanto eles não saíssem.Saíram. Estavam salvos: pelo menos até ali tudo era familiar... Não...Haviam coisas diferentes. Mas, como eles já esperavam por isso, nem se espantaram muito. Seguiram, com passos firmes, rumo à casa da tia da Júlia. Não! Não era rumo à casa da tia da Júlia, era rumo à casa do “tal pintor”.
    — Vamos, Aurora! — chamou André, não se contendo de tanta alegria de ter, ali com ele, naquela aventura, sua grande companheira.
    — Acho melhor seguirmos com a flauta — sugeriu Pedro.
    — Boa idéia, Pedro — concordou Júlia, lembrando de uma outra vez.
    — É mais seguro — afirmou André, reforçando.
    — E seguro morreu de velho — brincou Carlos. Seguiram, guiados pelo som da flauta. Já estavam chegando, era só mais uma curva e... lá estavam eles, bem na frente da casa que um dia seria da tia da Júlia. Estava bem mais bonita, mais nova. Quantos anos mais nova? Esta era a pergunta que eles estavam se fazendo. Em que ano estariam eles?
    — Vamos chamar? — perguntou Pedro assustado.
    — Claro. A gente não veio até aqui pra isso? — respondeu Júlia, não muito segura.
    — Comé que a gente vai chamar, se a gente não sabe o nome dele?
    — É. Fica difícil.
    — Fica nada. Nunca ninguém estranho bateu na sua porta, não, é?!
    — O André tem razão. Quem vai chamar, então? — quis saber Pedro ansioso.
    — Como sempre, eu chamo — disse Carlos, lembrando de uma outra visita no tempo.
    — Então, chama — pediram os três.
    — Ô de casa! Ô de casa! — chamou, batendo palmas.
 

 
     
 
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